Tuesday, October 31, 2006

Fernabo Bonini


Por Franco de Rosa (11/10/05)Morreu no dia 8 de outubro um dos principais desenhistas brasileiros do Zé Carioca, Fernando Bonini. Ele era alcoólatra, mas teve um enfarto fulminante enquanto dormia. O sepultamento ocorreu no Cemitério São João Batista, em Valinhos, cidade do interior de São Paulo, onde estava residindo nos últimos meses.No começo deste ano, Bonini lançou o que considerava sua obra mais importante, o álbum Luciano, escrito por Primaggio Mantovi e publicado pela Via Lettera.
O autor disse isso no último dia 17 de setembro, quando completou 50 anos e viu, pela primeira vez, a edição impressa. Emocionado ao identificar cenários e personagens secundários da história, naquelas páginas registrou graficamente muito de sua vida. Bonini passou o dia lendo e relendo a obra. Ele levou mais de quatro anos desenhando a história, pois realizava o trabalho nas horas vagas de um período de intensa produção para a Editora Abril, para a qual realizava trabalhos anônimos, como Zé Carioca e Urtigão, para os quadrinhos Disney.Desde antes do lançamento de Luciano, Bonini havia se internado em uma clínica evangélica de recuperação para alcoólatras, ficando meses sem contato com o mundo exterior. Fernando Bonini nasceu em Niterói e começou sua carreira aos 15 anos, como assistente de arte na Rio Gráfica e Editora, onde teve Primaggio como mentor, orientando-o nos desenhos de Sacarrolha e Recruta Zero. Depois, passou a fazer parte da equipe de jovens autores da RGE que desenvolveu projetos que nunca deslancharam, como Jô Comix (estrelado por Jô Soares) e A Vaca Voadora.Mas o terceiro projeto daquela fase deu certo: O Sítio do Pica-Pau Amarelo, no qual Bonini permaneceu como um dos principais artistas.No final dos anos 70, Bonini passou a produzir quadrinhos de terror para a Vecchi, desenhando inclusive A Namorada de Julinho, HQ escrita por Ota que foi transformada em projeto para cinema da Lemúria Filmes. Em seguida, produziu quadrinhos eróticos para a Editora Grafipar, de Curitiba, cidade onde foi morar em 1980.Com o declínio das HQs de terror e erotismo em 1987, Bonini voltou aos quadrinhos da Abril, após uma experiência frustrada no campo do desenho animado - chegou a integrar a equipe do longa O Grilo Feliz.Os Trapalhões, Zé Carioca e Gugu foram alguns dos títulos em que Bonini mais atuou até 1998, quando, deliberadamente e tomado pelo vício do álcool, resolveu ir morar na rua e tornar-se um sem teto e catador de papel.Em 2002, auxiliado por amigos, saiu das ruas e voltou a desenhar. A partir de então, realizou dezenas de revistas infantis para a Editora Escala, histórias em quadrinhos eróticas para a Editora Heavy Metal e publicou a revista Os Exterminadores Sem Futuro, pela Opera Graphica.Desde junho de 2005 vinha realizando as revistas infantis para colorir da Escala, Filhotes de Dálmatas, Turminha do Pica-Pau, Princesinhas, Rei Leão e Olhe e Pinte. Seu ultimo trabalho foi a edição de novembro de Brincando com os Animais, da mesma editora.Antes destas duas obras, porém, ironicamente, Bonini prestou uma homenagem a Luiz Sá, que também foi alcoólatra, ao desenhar várias páginas com Reco-Reco, Bolão e Azeitona (estrelas de O Tico-Tico) para o Almanaque Pic-Nic, que deverá circular em novembro.Fernando Antonio Bonini da Silva estava assinando seus trabalhos infantis como Sil. Sempre foi uma pessoa muito divertida. No entanto, a bebida o deixava muito deprimido. Com o passar dos anos, tornou-se extremamente depressivo e autodestrutivo, afastando-se dos amigos e parentes e mergulhando na miséria. Repetia sempre que esperava completar 50 anos para morrer.Bonini era um personagem tão interessante quanto os que desenhava. Foi centenas de vezes assaltado, algumas das formas mais absurdas. Foi atropelado quase uma dezena de vezes. Surrado por muitas mulheres. E perseguido por toda uma noite por um drogado que lhe tirou parte da visão do olho esquerdo, com uma paulada. Assim como teve seu par de meias, furtado em uma noite fria, enquanto dormia, bêbado. Mas o ladrão teve a caridade de recolocar os calçados em seus pés.Suas últimas palavras, proferidas a um companheiro de pensão foram "Vou dormir. Estou muito cansado."

3 comments:

Carlos Henry said...

Um acontecimento triste na história da HQB...Bonini era muito talentoso e produtivo,tendo participádo de vários momentos da HQB.
Espero que vc lance mesmo um livro sobre a Grafipar,para mostrar como foi a nossa Vera Cruz dos quadrinhos.Abração1

Alexandre Lobão said...

Oi Gian!

Já conhecia alguns destes artigos, publicados pelo Leonardo na revista AHQB. Como sempre, tudo muito interessante e bem escrito! Parabéns pela produção, espero que o projeto do livro sobre a GRAFIPAR decole!

Forte Abraço!

Leo Santana said...

Uma bela e triste história de mais um grande talento desperdiçado pelo Brasil. Quando vi Luciano pela primeira vez, no auge de minha ignorância sobre quadrinhos nacionais, imaginava ter sido produzida por italianos, pelo nome dos autores e pela perfeição dos desenhos. Após descobrir que se tratava de um brasileiro, fiquei maravilhado pelo seu talento. Bonini morreu mas é preciso que seu nome jamais seja esquecido e que as novas gerações possam reconhecer seu trabalho genial.

Abs.

Leonardo Santana